Existem
duas maneiras de se encarar e apresentar uma banda: pelos fatos ou pela
impressão que esta causa. No caso dos paulistas NX Zero, que têm idades entre 21
e 22 anos, ambos importam. Vamos primeiro aos fatos, contra os quais não há
discussão.
O conjunto existe há cinco anos, tempo suficiente para lançarem dois discos,
sendo que este, homônimo, é o primeiro por uma gravadora grande, Arsenal, e já
com as quatro mãos de dois midas do gênero na mesa de som, Rick Bonadio e
Rodrigo Castanho.
O clipe da música que abre o disco, “Além de Mim”, tem alta rotação na MTV e já
chegou ao topo do programa “Disk”. No embalo, o quinteto já rodou do Sul ao
Centro-Oeste do país, tocando com bandas como Dead Fish, CPM22 e Cachorro
Grande. No ano passado, levaram de uma tacada os prêmios de melhor banda e
música (“Além de Mim”) em votação popular no site Zona Punk, à frente de big
shots com carreira já sedimentada nas rodas de pogo.
Feita a apresentação formal, vamos à música, que é o que importa.
NX Zero é uma banda que trafega com a cabeça erguida no subterrâneo do rock, em
mistura suculenta do poder de ataque do hardcore sovada em vocal e camadas
instrumentais de melodia. As letras trafegam menos pela emoção (ou falta de) e
mais por viagens interiores.
Introspecção que ganha dramaticidade em camadas de guitarras e sustentação
vigorosa da cozinha bateria e baixo.
A já citada “Além de Mim”, primeira do disco, é exemplo redondo – uma guitarra
enfurecida prenuncia um quebra-quebra generalizado, suavizado pela melodia vocal
e um morde-assopra conduzido por Dani Weksler na bateria. “Conseqüências” mantém
a levada, com um dueto encaixado no ângulo no refrão.
“Razões e Emoções” é o cartão de visitas introspectivo do NX Zero, com densidade
que dá a impressão de que o ar que envolve a música pode ser cortado com uma
faca.
Com “Um Pouco Mais”, no embalo da letra do hateen Rodrigo Koala, a banda fica
mais emotiva, mas não perde o rebolado nem “com um nó na garganta”. O apelo
emocional segue em “Ilusão”, música que prestigia tanto a cadência quanto o
peso.
O NX Zero pega pista livre e acelera em “Apenas um Olhar”, mantém a velocidade
lá em cima em “Pela Última Vez” e em “La Prision” e encara uma descida em ponto
morto em “Incompleta”. “E se Tudo Der Errado?”, questiona o vocalista Di Ferrero
em “Círculos”, música sob medida para o baixista Caco Grandino colocar o pé no
retorno e tomar a rédea. “Tarde Demais” é uma bela balada que abre a porta e
estende o tapete para a bate-cabeça e bilíngüe “Uma Chance”. "Mentiras e
Fracassos” soa heavy metal no riff inicial dos guitarristas Gee Rocha e Fi
Ricardo até Dani espancar seu kit e reconduzir o som para o trilho HC.
E “Um Outro Caminho” é o desfecho que condensa todos os elementos acima –
melodia vocal, peso, quebradas, boas letras, guitarra potente, baixo preciso.
Você pode até duvidar de tudo o que foi dito a partir do sexto parágrafo deste
texto, quando passamos da objetividade dos fatos para a subjetividade de como a
música nos toca. Por isso proponho um desafio: que coloque o CD para rodar e
tire as próprias conclusões. No final, pode até não concordar comigo, mas não há
como ignorar a trupe de fãs que endossa as conquistas do NX Zero dos primeiros
cinco parágrafos.
Luiz Cesar Pimentel